Cresci com as mãos na terra e os olhos nos números. Em casa aprendeu-se que a vida se resolve — e eu resolvi tudo o que me puseram à frente. Engenheira civil, mãe aos trinta e dois, mãe de novo aos cinquenta e dois. Entre uma maternidade e a outra coube uma vida inteira — e quase uma segunda.
Houve um ano em que tudo parou. O corpo avisou primeiro, como costuma fazer. Depois foi a relação. Depois o trabalho que eu tinha construído com orgulho e suor. Três pilares que caíram mais ou menos ao mesmo tempo, como se a vida tivesse decidido que precisava de me mostrar qual era o alicerce verdadeiro — o único que não ruía.
Demorei anos a construir esse chão. Não foi terapia, não foi coaching, não foi meditação em retiros caros. Foi toda a gente e nada disso. Foi livros à meia-noite, conversas honestas com mulheres mais velhas, lágrimas na cozinha, caminhadas sem destino, e sobretudo, sobretudo — a escolha consciente, quase diária, de não fingir que estava bem.
Hoje, ao olhar para trás, percebo que o que me reconstruiu não foi uma técnica nem um guru. Foi a lenta paciência de me habitar. Foi descobrir que debaixo de todas as versões performativas de mim — a filha, a engenheira, a esposa, a mãe — havia uma mulher que eu nunca tinha conhecido. E que ela estava à minha espera.